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Descobri que meu cabelo poderia ser belo, apesar de crespo, aos 15 anos. Desde criança, com uma família inteira de "lisos", não foi fácil ser, simplesmente, diferente. Minha mãe colocava bobs em mim com oito anos de idade. Eu só andava de maria chiquinhas, rabo de cavalo e depois dos 12 anos, minha tia cabelereira jurou que ia dar um jeito em mim, alisando meu cabelo com umas pastas horríveis e que ardiam o coro cabeludo.
Foi naquela efervescência dos anos 80 (desculpem os dos anos 60, mas pra minha geração, foi!), passar o Natal de cabelos soltos e encaracolados, chinelo de couro, jeans, uma bela camiseta de silkscreen com o rosto do Chico e seus olhos verdes, foi um marco na minha vida. De lá para cá, posso até ter feito um ou dois alongamentos, relaxamentos e demais “entos” inventados pelos salões de cabeleireiros. Mas prevaleceram os cachos, o volume, uma estética pós-hippie-neo-punk (porque não???), resumindo, meio casual desarrumada. Mas lisinho lisinho, chapinha, nunca.
O tempo foi passando, vieram os filhos e comecei a me lembrar de uma entrevista da Leilane Neurbah(ou coisa parecida), aquela repórter a Globo, no programa Superbonita, da GNT, explicando porque ela tinha alisado o cabelo. “ Depois dos 40 comecei a me sentir uma hippie velha”!
Anos depois, eu comecei a me sentir também. Nem tanto por influência dela, mas algo na coesão estética começou a ficar esquisito. Além disso, com dois filhos pequenos, para deixar os cachos adornados, sedosos, bonitos, hidratados, é uma trabalheira - e um pouco de sorte, eu diria -, que só quem tem cabelo crespo sabe o que é. Há meses fiquei pensando na possibilidade de dar um jeito no cabelo e mudar o visual.
Me convenci quando três amigas crespas fizeram a tal escova progressiva. “No início você assusta, parece a Maga Patológika. Mas depois fica mais natural e vale a pena”, me encorajou a Adelina. “Força na peruca”, mandou Inês, que fez “escova francesa”. E por último a New, que até de franjinha está.
Tomei coragem e passei três horas no salão. Pareço mesmo a Maga Patalógika. Esperava a reação do maridão, que sempre curtiu meu visual black sarará. Mas não imaginei a reação das crianças: o Caio quando chegou da escola olhava pra mim e ria, ria, ria sem parar. Passava a mão no cabelo, mas conferia que era a mesma mãe que estava ali.
Já com o Theo...
- Mãe, não gostei (e amassava meu cabelo esperando que os cachos voltassem).
_ Eu gosto do seu cabelo todo enroladinho. Eu não gosto mais de você. Agora eu só gosto do meu pai. Agora você ta “cabelada”.
E saiu, aos prantos, prantos mesmo, daqueles de muitas lágrimas. Foi pro quarto, disse que ia dormir e bateu a porta.
Fui lá, mas ele me mandou embora. Chorando, pediu pra fazer o cabelo ficar enroladinho de novo. Argumentei que era só um cabelo, que a mamãe era a mesma e que só mudou um pouco, pra experimentar. Assim como ele bota boné, chapéu, fantasia do Batman. Aos poucos ele foi se acalmando.
Chamei pra ir ao supermercado comigo. Subornei sua tristeza com um picolé. E cada vez que ele me olhava, era uma feição inconformada. No elevador, pedi um beijo, e o cabelo, que está liso, caiu na bochecha. Ele chorou.
_ E eu nem posso mais dar um beijo na sua bochecha. E fechou a cara.
É muito estranho ter um cabelo que oebdece as leis da gravidade. Eu mesma, quando vou conferir o novo look no espelho, acho que uma outra mulher de cabelo liso pula na minha frente. Não sou eu. Mas estou confiante nos próximos dias. Também fico pensando se fiz a coisa certa, mas está feito.
À noite, o Theo me chamou pra deitar no colo dele. Uma das coisas que ele curtia era fazer cafuné naquele imenso cabelão. Certa vez, ao ver um “moderno” modelo black power total, propaganda do celular na Motorolla, mostrou a página do jornal pro pai e disse: “Olha pai, é a mamãe”. Morremos de rir, e claro, guardei a página do jornal.
Mexendo no novo cabelo liso, ele reparou que haviam mechas vermelhas, que mal apareciam no crespo anterior.
- Olha, tem cabelo vermelho aqui. Mãe eu te amo. Você é linda, eu gosto do seu cabelo.
Ser mãe é o maior barato!
Um canto do quarto de brinquedos (reunidos)
Não meu filho, não pode limpar o nariz no travesseiro da mamãe
Ai, ai ai, pisei num lego, p... m....
Cadê a chave do carro?
O Caio levou pro banheiro
Corre, que ele ta com mania de jorgar na privada
Pedro, pega pra mim meu celular?
Onde está?
Tá lá debaixo do tanque, na área (Ane)
Ih, quebrou o controle remoto, outra vez
De novo, não...
Não, não meu filho, esse lençol ta limpinho, não dá pra fazer cabaninha na cozinha
Cuidado, cuidado pra não escorregar, o Caio acabou de esparramar o suco no chão
Caio, Caio.... sai de cima dessa mesa
Não Theo, deixa a plantinha em paz
Corre, corre, que ele vai quebrar minha Iemanjá
Ih, quebrou o controle remoto outra vez
Alguém viu o...
Não....
E alguém encontrou o....
Não
O Theo disse que só dorme com o elefantinho
Alguém viu o elefantinho?
Elefantinhoooo? Apareeeece, senão o Theo não dormeeeee
Achei, achei o elefantinho
Onde estava?
Dentro da banheira
Ih, tá molhado?
Não, não, estava sem água
Ufa
Putz, dormiram
Ufa
Ufa
Sua camisa ta cheia de macarrão
É, eu sei
Tem pipoca na sala inteira
Amanhã a gente arruma
Vamos ver um filme?
Vamos, a gente merece, né?
E.... cadê o DVD da locadora?
Composta de algumas paredes portas e janelas, denomina-se casa um lugar de refúgio, aconchego, solidão, para partilhar com os amigos ou fugir deles. Pode-se comer macarrão e brigar com parentes diversos. Uma boa casa tem a cara do dono. As cores, excesso ou a ausência, revelam detalhes de sua natureza. Muitas vezes a casa não é cara do dono porque o bolso não lhe permite. Ainda assim, ao chegar na casa de alguém pela primeira vez podemos olhar as cores, os livros, os CD’s, a geladeira e ter um bom estudo sobre seu morador.
Quando somos adolescentes a casa dos pais normalmente é inadequada. Não podemos ouvir música alto, largar a pizza debaixo do sofá e assistir o que quisermos na televisão. Também é difícil namorar em casa nesta idade. Nessa fase adota-se como casa o carro de algum amigo, bares, a escola ou agremiações de qualquer natureza.
Quando nos tornamos profissionais, a casa torna-se grande objeto de desejo. Ao obtê-la, as primeiras compras são almofadas, aparelho de som e o quadro de um amigo péssimo pintor. Também compra-se muitas comidas instantâneas além de cerveja e ovos.
Quando casamos, os homens brincam de papai e as mulheres de casinha. A casa vive um conflito por um tempo entre a austeridade do pai e o romantismo da esposa. Um quer muitas flores e panelas e o outro dormir no sofá com a TV ligada.
Depois dos 30 anos, a casa só dá trabalho: o aparelho de som quebra, a televisão fica pequena, pagamos uma faxineira e detestamos ir ao supermercado.
A fase da maturidade da casa é desconhecida desta autora. Imagina-se que a tecnologia invente uma casa auto-sustentável, de preferência com um quarto a prova de som para os filhos e com dias alternados de paz e inferno. A preferência é pela tranquilidade.
Casa
Outro dia percebi que os quadros eram as coisas mais importantes da minha casa
Seus personagens poderiam proteger-me dos visitantes estranhos, fazê-los sorrir ou pensar, as belas paisagens alongar as paredes que limitam nosso horizonte
E os santos para me benzerem nos dias de aflição
Casa II
O aconchego da minha casa mora no olhar de uma indiazinha
Eu não sei de que tribo ela é
Mas ela conhece todos os meus rituais
Quando estou triste ela me dá porções mágicas
Quando quero encontrá-la
Sento no sofá e olho sua foto
A coisa mais bonita da minha casa
Seus olhos, minha morada.
O papo é sempre bom entre as motherns: o desafio de criar meninos para que sejam homens bacanas quando foram adultos. Por homens bacanas, entenda-se: carinhosos, que liguem no dia seguinte, etc etc etc e quando casados, ajudem efetivamente nas tarefas domésticas, troquem as fraldas, lavem louça sempre que necessário, e por aí vai.
Mas cadê as panelinhas pros moleques brincarem? As mães não compram. Cadê as bonecas para eles ensaiarem os primeiros cuidados? Nós não compramos. E eles brincam pra valer na casa das amiguinhas, sem nenhum pudor. E vice-versa. Meninas adoram brincar com carrinhos de vez em quando. As mulheres podem não ser as melhores motoristas do mundo, mas ninguém nos incentivou a dar umas derrapadas por aí desde criancinhas.
Carrinhos para as meninas! E bonecas para os meninos.
Claro, os fabricantes de brinquedos poderiam fazer umas versões mais moderninhas para os meninos brincarem de chef... Afinal, mesmo para as garotas, é rosa choque demais o tempo todo. E as meninas, de carrinhos menos masculinizados. Na teoria, tudo muito bom.
Eis que comento o papo todo com a Celeste pelo msn, a madrinha do Theo, citando uma sexóloga que disse em entrevista na Marília Gabriela, "machismo é como hemofilia, só os homens pegam, mas são as mulheres que passam".
Celeste, apoiou total e mandou:
- Vou mandar uma boneca de presente do dia das crianças para o Theo!
kakakakakakakakakakak
E ela mandou mesmo. E a mãe descolada aqui ficou olhando para aquele bebê todo vestido de rosinha, com peniquinho, mamadeira, tiara pra botar no cabelo, e.. na boa. Sem ação. O pai chegou e não titubeou muito: "E dá para trocar por outro brinquedo?
Papo vai, papo vem, muitas ponderações - afinal, e se ele resolvesse sair por aí de boneca em mãos, o que os pais dos amiguinhos dele iriam comentar? - Bateu até uma certa vergonha do nosso próprio preconceito e resolvemos deixar o Theo - que está na fase superherói - abrir a caixa e decidir por ele mesmo o que fazer com o brinquedo politicamente correto da madrinha.
Indiferente. Nem tocou na boneca. Eu ri, porque, afinal, foi muita polêmica pra pouca repercussão (rs). E o Pedrão brincou na hora (brincou?) "É macho, mesmo!"
Risos
Hoje cheguei do trabalho e vi o Theo pedindo silêncio. E lá estava a boneca, devidamente coberta com uma fralda de pano do Caio, "dormindo".
- Mãe, fala baixo que a Juju tá dormindo.
- Juju? Ah, tá meu filho, mamãe fala baixinho, tá?
E no meio dos carrinhos, trens, quebra-cabeças, buzzlightyear, Juju dormia sossegadamente.
É isso. Vou criar essa mistura de batman doce que vem por aí! Acho que a Juju é gente boa e o Theo acabou "ligando" para ela no dia seguinte! Ela merece. Nós merecemos.
E eu espero que ele seja um superhomem!
(Valeu a ousadia, Celeste!)
Empolgado com o trabalho do semestre da escola, sobre a África, depois de desenhar com ele o elefante, o rinoceronte, o tigre, o leão, a girafa, e eu contando os minutos para dar a hora dele dormir o Theo me disse que tinha um bicho muito legal: o Jupinda!
- O Jupinda, mamãe - falou com toda propriedade -, tem duas trombas, e duas cabeças, não tem asa e tem um olho só. Ele é muito grandão, igual ao elefante e tem muitas perninhas!
Fofo!