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Dona Célia era avó que toda criança deseja: carinhosa, atenciosa, com um feeling para dar os brinquedos certos na hora certa e um olhar sempre meigo. Tinha uma sabedoria rara, coisa de mulher corajosa que criou, bem, seis filhos.
Nessa foto, ela tinha me pedido para fazer o Caio dormir. Pedido que ele atendeu prontamente naquele travesseiro tão bem ajeitado que só vó sabe fazer acontecer.
Esse sono tranqüilo dos dois, essa paz, é uma imagem que vai muito além da foto. E do tempo.
Bom descanso, Dona Célia.
Assisti o filme “Uma babá quase perfeita”, com Robin Williams, no cinema, junto com meu pai. Foi uma de suas raras visitas à Salvador quando eu ainda era estudante e queria agradá-lo com uma boa comédia. Ainda pedante como toda estudante de comunicação, fiz uma concessão ao meu gosto na época pelo cinema europeu para me dedicar às poucas horas de convívio de forma divertida com meu pai.
Ri muito e confesso, cada vez que vejo qualquer pedaço de uma reprise na TV, morro de rir até hoje. Também fico com os olhos marejados de lágrimas. Explico melhor.
Eu devia estar no penúltimo ano da faculdade. Meus pais moravam no interior da Bahia e ainda havia certa esperança de que eu voltaria a morar lá, exercer o jornalismo sabe lá Deus como. Meu irmão havia ido para os Estados Unidos. A família de quatro pessoas estava, irremediavelmente, se re-configurando. Os filhos adultos, seguindo suas vidas, longe dos pais.
Quando o filme acaba com a Mrs. Doubtfire fazendo um discurso piegas, mas verdadeiro, sobre as famílias modernas, filhos que moram com pais, outros com as mães, com tios, avós, meio irmãos, longes, ausentes, presentes, me acabei de chorar. Estava ali, naquelas últimas cenas do filme, retratada a nova condição da minha família original. Meu pai me olhou complacente, inteiro, e sacou, “Ah, você está chorando porque nossa família está se separando, né filha?”. E eu, tal qual uma menina de 10 anos, me recolhi no seu abraço.
De lá pra cá, tive muitas famílias. A dos amigos da faculdade, dos colegas de trabalho, pessoas que muitas vezes foram pais, mães, irmãos, tios, primos. Amigos com os quais a gente se afina, abre a vida, partilha tristeza e alegrias. Claro, o amor pela minha família é inigualável, porque ali estão construídas nossas primeiras emoções, afetos e frustrações. E quando a gente forma a própria família, quer fazer o melhor, porque sabe que essa base fica tatuada na nossa vida afetiva para sempre.
(eu sei, eu sei, blogs devem ser curtinhos... mas eu não consigo fazer!).
Só esse ano, assisti a pelo menos três separações de casais amigos. Pais como nós com filhos pequenos. Dá uma tristeza profunda, porque acho que ainda não existe dor maior que dor de amor e quando envolve crianças, tudo fica mais complicado. Mas a busca da felicidade é a única obrigação dessa vida. E para ser uma família feliz, seja qual for sua configuração, localidade, é importante que cada um se sinta feliz, mesmo que isso tenha um custo inicial bastante alto. A superação faz parte da vida e só fortalece. É melhor do que acovardar-se, amargar e acabar deixando toda a família infeliz.
Queria registrar nessas linhas meu respeito e minha solidariedade aos amigos queridos que estão passando por esse momento difícil. Tem centenas de filmes excelentes que retratam a vida familiar e seus conflitos. Mas minha dica é esse filme simplório, da babá quase perfeita – na verdade deveria ser “um pai quase perfeito” -, que marcou um momento da minha vida, um quase pastelão, mas que faz a gente ver que a vida continua, as emoções se renovam, e que ainda daremos boas risadas apesar de tudo.