"Mãe, conta uma história?"

A rotina existe? "De perto todo mundo é normal", já contradisse Almodóvar. Conviver com a diferença, com os filhos, com o grande amor, com a profissão, os desejos, com o possível e com os sonhos. Como é isso mesmo?

"Mãe, conta uma história?"

A rotina existe? "De perto todo mundo é normal", já contradisse Almodóvar. Conviver com a diferença, com os filhos, com o grande amor, com a profissão, os desejos, com o possível e com os sonhos. Como é isso mesmo?
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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2006

26.06.06

Por um botãozinho de pause!

Quando conheci a Cláudia Santos, seu filho, Alexandre, tinha cinco anos. Todos os seus controles remotos estavam quebrados por obra do pequeno. Eu não tinha filhos ainda e confesso que a primeira coisa que passou pela minha cabeça, foi: “nossa, mas que mãe mais permissiva. Ela não dá limites para essa criança?!”.
Pouco tempo atrás, já com meus dois filhos, contei para Cláudia meus terríveis e maldosos pensamentos quando a conheci. Rimos muito e completei: todos os meus controles remotos estão quebrados. Todos!
Paguei a língua! Fico imaginando que meus amigos sem filhos pensem o mesmo de mim: "mas que mãe mais sem limites!!"

Minha TV quebrou. Motivo? O Caio quer ver o “cocococococó”. E enquanto o cocococoó não aparece, o dedinho dele fica nervoso e não pára até que alguém resgate o botão “power”. Agora meu televisor liga e desliga a hora que bem entende. Desde que o Theo nasceu há três anos e meio e já estamos no quarto controle remoto de TV, aqueles universais de R$ 15 da Santa Efigênia. O de DVD quebrou agora. O aparelho de som e o micro system já tiveram sua visita à assistência técnica esse ano. E por aí vai. Já tentamos de tudo, mas é só dar um vacilo, um vacilinho, e deixar os aparelhos acessíveis, que já estão nas mãos dos meninos. Adeus, bye bye so long, far well!
TV, aparelho de som e DVD, só com investimento em uma estante nova, suspensa, pós-moderna, fora de alcance para o nosso bolso. Aceito sugestões! Mas a verdade é que nós, simplesmente, não conseguimos controlar essas crianças nesse quesito. Elas são rápidas demais. E não dá pra ficar 24h de marcação colada.

Se eu fosse fabricante de eletroeletrônicos, desenvolveria uma linha fake, de borracha, silicone, ou coisa parecida de controles remotos para famílias com crianças. Porque elas têm total obsessão por celulares e controles remotos. E não adianta comprar lindos similares infantis, coloridos e cheios de teclas, que tocam, fazem barulhinho. Elas querem os nossos, de adultos, pretos, sem graça que fazem mágica ao serem apontados para a TV, DVD ou para o aparelho e criarem sons e imagens.
Fabricantes de brinquedos: Fischer & Price, Chicco, Chineses, Ting lings, fabricantes de TV e celulares, Sony, Gradiente, Motorola, acionem vossas gerências de produtos. Escutai essa mãe que vos fala para enriquecerem um pouco mais: façam réplicas! Atóxicas, sem chips, mas réplicas perfeitas. Estão duvidando de mim? Façam pesquisa de mercado. Falem com seus funcionários que têm filhos. Eles já passaram por isso. Distribuam questionários nas assistências técnicas. Vcs vão ver que é tudo verdade.
Melhor ainda, desenvolvam o tal botãozinho de pause, nas crianças (rs). Com 15 segundinhos bastam. Vai ser mais um controle remoto para controlar... mas fazer o quê, né?

  • criado por  Bia Lago criado por Bia Lago
  • Postado em 23:07:22

21.06.06

Serial Baby

Danilo, 15 anos, vai ao cinema, mas não matou a irmã

 

Celeste* tirou uma boneca de dentro do vestido e mostrou a Danilo, então com dois anos e meio, para ilustrar a chegada da irmãzinha, Marina. E começou um diálogo preparatório:

- Então filho, a Marina vai chegar, ela é um bebê que tá dentro da barriga da mamãe e a gente vai ter que cuidar dela porque ela não sabe fazer nada. A gente vai dar comidinha pra ela...

- Hã, dar comidinha assim ...

- Tem que dar banho...

- É dar banho assim...

- Depois tem que colocar pra dormir

- É, na caminha, né

- É, a gente vai dar muito carinho pra ela

- Vai dar carinho,né... Matar não, né mamãe...

- Não filho, matar não...

* Celeste é irmã do Pedro, mãe do Danilo, 15 anos e da Marina, 13.

  • criado por  Bia Lago criado por Bia Lago
  • Postado em 11:38:45

16.06.06

Descobri uns forrozeiros!

Theo, de caipira em 2005 (não temos fotos do feriado porque nossa máquina...pifou!!)

No feriadão pra variar ficamos em sampa. Mas decidimos logo na véspera que passaríamos o dia curtindo fora de casa! Demos sorte com o dia lindo que rolou. Fomos ao Sesc Interlagos e que delícia ver o Caio correndo atrás dos gansos vestido só de fraldinha, tomando um solzinho, descalço, na maior alegria. E o Theo subindo e descendo aquele jacaré enorme e correndo em alta velocidade com sua supertonka, modelo 2003 por todo o parque!

Hora do almoço, rango no restaurante coletivo, gostoso, modesto e decente e depois casa, porque os meninos estavam morrendo de sono e com a TPS ("Tensão Pré Soninho" como apelidaram as “motherns”) se pronunciando, seria injusto e contraproducente esticar o passeio, por mais que o dia nos convidasse. Pausa em casa pós almoço, um sono gostoso do Caio, mas nem tanto do Theo, cujo cochilo de 20 minutos no carro foi suficiente pra recarregar a energia, acabando com o projeto de namoro dos pais (buáaaaa).
Pedrão tem muito mais pique do eu pra sair de casa com os meninos. Confesso que só de pensar em fazer “malinhas” de vez em quando fico cansada. Ainda bem que ele insistiu: a tarde ainda estava linda e pesquisamos no portal do Sesc que ia rolar uma festa junina no Ipiranga. E Fomos pra lá!
Que delícia de festa. Tinha tudo, tudo mesmo que uma festa junina deve ter. Até noite com estrelas. Inclusive, contemplando a tradição do Nordeste, muito forró. O Theo experimentou – e gostou – do suco de milho, o Caio, pra variar caiu na “coca coca” (tradução: pipoca), e ainda teve contação de história em uma ambiente aconchegante com lareira. Um grande alívio para nós, já que era grande a expectativa do Theo de ver fogo, depois de aprender na escolinha que festa junina legítima, tem que ter fogueira!
Passou do horário padrão deles dormirem e ninguém ficou mal humorado. Quando entrou a banda ao vivo para tocar os clássicos do forró e todo mundo caiu no “rastapé”, também dancei com meus garotos. Claro, menos o Pedro, porque enquanto eu dançava com um, ele olhava o outro. Todos dois amaram. Senti, pelos ruídos da minha coluna que provavelmente voltaria de maca para casa, porque dançar animadamente com 10 e 20 kg nos braços, alternadamente, é coisa pra “paraíba mulher macho sim sinhô!”.
O Theo gostou. Mas o Caio... amou! Ai de mim que parasse um pouco, pra tomar um gole de cerveja e pegar um fôlego. O loirinho chorava, acredita? Bravo! O príncipe nórdico de um ano e três meses batia os dois joelhos com força na minha barriga como se eu fosse um potrinho a leva-lo num galope ritmado. E se eu colocasse no chão, voltava feito uka faísca pro meio da muvuca, sem se intimar com a possibilidade de ser atropelado entre um xote e um baião! Dançamos! Muito. E mais impressionante: consegui levantar no dia seguinte, o que realmente, só me faz lembrar daquela máxima, “Deus ajuda os malucos!”

  • criado por  Bia Lago criado por Bia Lago
  • Postado em 20:35:38

14.06.06

Meu torcedor favorito

Em 2002, eu estava grávida do Theo. Estava no segundo trimestre de gravidez, feliz da vida com minha barriguinha, paparicada por todos os amigos. Existia uma empolgação especial com a seleção a comando do técnico Felipão, que tinha cara de pai de um Brasil órfão, com espírito de equipe, despretensão e transparência. Também havia certa euforia com as pesquisas que davam a eleição de Lula como certa. Era a expectativa de um Brasil campeão e melhor, mais modesto. Menos Sorbonne, mais bola no pé.
Como os jogos eram pela manhã, combinamos um "desjejum" em casa com todo mundo. Se bem me lembro, 90% dos meus amigos então eram solteiros ou sem filhos! A idéia era um buffet matinal "tipo" hotel quatro estrelas: muito bolo, sucos, queijo branco, muitas garrafas térmicas de café e leite, tudo como manda figurino. E claro, muita cerveja pra festejar os golaços depois do jogo.
Na véspera, teve um problema qualquer no prédio e ficamos sem água. O zelador garantiu que no dia seguinte estaria tudo ok. Avisei preocupada, “olha lá, hein? Vêm umas trintas pessoas amanhã aqui em casa pra torcer! Sem água, Deus me livre!”
E o zelador me tranqüilizou. Mas não ligaram água. Nem no dia seguinte, bem cedinho.
Imagine 30 pessoas querendo ir ao banheiro.... sem água! Nem pensar. Liguei pra todo mundo suspendendo a “torcida”, mesmo sob protestos, pois sabia que era impossível reunir tanta gente, naquela circunstância em que se bebe tanta cerveja, com banheiros inoperantes. Coitada da anfitriã!
Assistimos ao jogo em cinco, com meus cunhados, que vieram do mesmo jeito e mais um amigo. Depois reencontramos todo mundo na Paulista festejando. E já com a água normalizada, almoçamos o café da manhã às duas da tarde com todo mundo. Mais uns frangos assados com muita farofa de uma padaria aqui do bairro. Foi uma comemoração inesquecível.
Quatro anos depois pego meu filho na escola em uma euforia louca com o Brasil. “Vai ter festa “no Brasil”, né mãe? Nós vamos “no Brasil”, tem festa hoje, né?” E a gente até que tentou mostrar o globo terrestre, o Google Earth, mas a geografia ainda é muito complicada para o Theo. Na verdade, sua empolgação foi a única coisa que me contagiou para a Copa. Estamos num Brasil menos esperançoso, mais cansado, com um Ronaldo gordo, e um Ronaldinho Gaúcho muito marcado pra fazer gol. Dessa vez, só um amigo era solteiro, o resto, papais e mamães, além da Ane! E um golzinho do kaká. Tudo muito chocho.
Olhando o Theo vestido de verde amarelo, um pouco frustrado ao perceber que a festa era na frente da televisão... e que aquele negócio de gol demora muito, me lembrei de uma das coisas que torci quando eu o esperava... Queria que ele fosse como o Zé Celso, cuja mãe descreveu que ele tinha um amor tão grande pelo Brasil que aos oito anos já pendurava a bandeira brasileira na bicicleta.
Vamos meu filho, vamos torcer pelo Brasil. Espero que você, o Caio, e todos os seus amiguinhos, possam nos contagiar novamente um dia por esse país sempre tão promissor. Pra gente fazer uma festa “no Brasil”, com muitas bandeiras, camisas, cornetas e craques, no campo e no planalto, tudo muito verde e amarelo. Transparente, modesto e bonito. De verdade.
  • criado por  Bia Lago criado por Bia Lago
  • Postado em 20:55:50

09.06.06

O pãozinho que vem debaixo do braço

Pedro, Theo e a Johana, a "Leoa"

 


Já estávamos casados há uns cinco anos e ter um filho já estava em nossos planos. Mas fomos adiando, como todo casal, esperando a situação ideal. Para o Pedro, situação ideal era ter um emprego estável, uma gorda poupança, casa própria espaçosa com quintal, árvores e passarinhos cantando nos galhos, nenhuma dívida, além do doutorado concluído. Com desconto da caricatura, também me preocupava com todas as despesas que chegam junto com o bebê. Fraldas, berço, pediatra, escolinha, roupas e afins. E fomos levando a vida em meio a muitos chopes e amigos até que esse dia mágico e paradisíaco em que todas as situações ideais estariam reunidas para conceber o nosso bebê..

Numa dessas noitadas, no Sacolão da Vila, conhecemos a Johana. Uma carioca da hora, diretora de teatro e mãe do Lucca, hoje com uns seis anos. Foi numa mesa de bar, numa daquelas conversas ritmadas de quando a gente conhece alguém interessante que ela foi direto ao ponto:

 - E aí, vocês não pensam em ter filhos?

E olhamos um pra cara do outro meio sem graça, e dissemos que sim, sim... E listamos todas as condições ideais para encomendar o rebento. Trocando em miúdos, nosso problema era grana! Johana olhou pra gente com aquele olhar de gente sábia que só quem é mãe pode dar e fez uma descrição linda sobre a maternidade. E arrematou:

- Bebê já vem com o pãozinho debaixo do braço. Podem ficar tranqüilos.

E contou como a sua vida profissional se transformou depois que o filho nasceu.

- Eu virei uma leoa, mais centrada, mais profissional, porque tinha um filho pra criar.

 E olha que, segundo a tradição careta, viver de teatro não é das carreiras mais “estáveis” (se é que existe alguma hoje em dia!). Vou explicar melhor: a tal Johana é a Johana Albuquerque, diretora da Bendita Trupe , grupo premiado e abençoado pela crítica. Assembléia dos Bichos e Miserê Bandalha são alguns de seus espetáculos aclamados pela imprensa e pelo público.

O papo foi ótimo. E no fundo nos deixou mais tranqüilos, Com menos idealizações.

E poucos meses depois, eu estava grávida do Theo! O doutorado do Pedro ainda está por fazer, no início me atrapalhei um bocado já que era free lancer e perdi alguns trabalhos importantes. Mas o fato é que tudo se normalizou, mesmo em um país instável como o nosso. E tal como a Johana, também viramos “leões” pra garantir nossa bendita trupe !

Tem dia que dá um friozinho na barriga, principalmente aqueles em que a gente pega a calculadora e o monte de boletos para pagar no mês. Mas não tem contabilidade que desarme a alegria dos beijos e abraços do Theo e do Caio a cada dia. Sem falar nos tais pãezinhos que vêm mesmo debaixo do braço.

Valeu Jô!!!

  • criado por  Bia Lago criado por Bia Lago
  • Postado em 10:44:54